quinta-feira, junho 07, 2018

Exercício "Tardiamente Amanhecido"



Fui, não só eu, mas também, desafiado a imagicar e escrever sobre uma premissa muito interessante de ser pensada, mais ainda nos dias que correm.

Partiu da Maria (maria madeira, para os “seguidores”), através do seu AmanhecerTardiamente!, e deu várias coisas muito boas para quem gosta de fazer uso da cabeça para mais do que crescer (e/ou deixar cair) cabelo.
A minha contribuição, sendo que me soube tão bem como a pouco, ameaça transformar-se numa série de apontamentos, do qual se torna, para já, o primeiro e, por enquanto, o único. E fica, além de lá, aqui também:



Desconsolado, resignou-se com o facto. Entre tantos e tantos familiares e amigos, apenas os pais e a irmã lhe haviam dado os parabéns por mais este aniversário. Num mundo que obsoletizara as agendas de papel e os neurónios em que os cérebros humanos formavam as memórias, um mundo em que as informações eram, em vez disso, arrecadadas n’A ubíqua Núvem (ou como se diz em estrangeiro – n’A Cláudia), choviam mensagens de congratulação vindas dos vários cantos do planeta, anualmente, neste dia deste mês...

Mas hoje não. Hoje, à excepção das três mais próximas, as pessoas não sabiam, afinal, que o moço cumpria mais uma das suas (agora vinte) voltas-ao-Sol. A culpa disto, pensou, era d'A Cláudia, ou melhor, do seu súbito desaparecimento. Mas em bom rigor, estava enganado. A culpa era mesmo das pessoas, crentes que A Cláudia nunca lhes faltaria ao ponto de nela depositarem tudo o que era seu. Crentes que tudo o que nela depositassem, passava a estar-lhes acessível de qualquer ponto do globo. Crentes nessa espécie de baú omnipresente, nele se haviam já depositado as pessoas, inteiras, sempre cheias de (boa) Fé!...

A pouco-e-pouco, foi consolando o seu desconsolo com a percepção de que hoje, apesar dos pensares, era bem capaz de ter sido o dia mais sossegado que se conseguia lembrar de já ter tido. Provavelmente o único que já tinha tido, desde que entrara para a escola, sem solicitações em forma de plim!’s… Ainda que sendo um sossego muito desassossegante, o friozinho que trazia na barriga não lhe sabia mal de todo, como aquelas borboletas que lá – na dita barriga – lhe batiam as asas sempre que se cruzava com a possível troca de olhares entre si e uma certa e determinada moça, que soía estar a ler num banquinho do jardim que ele atravessava quando a rotina do dia o trazia de volta a casa…

Mas hoje não. Hoje, não havia rotina. Hoje, estava o mundo abananado, entontecido e sem saber o que fazer. Nem comércio, nem serviços. Nas ruas, quase todas desauridas, as gentes que não estavam catatónicas, soltavam e-agora?!’s umas para as outras. E as restantes, por enquanto em minoria, preparavam-se para o fim-dos-dias como se ainda houvesse amanhã…




4 comentários:

  1. E ainda existe quem consiga dizer que não gosta de ler. Que ler é coisa chata. Eu continuo a achar o exercício de ler das melhores coisas que existe para curar males da alma, para ajudar a recuperar o sorriso, para perceber que quem não consegue estar sozinho com o silêncio, acompanhado apenas por letras escritas, o mais provável é que um dia, um dia lá mais para a frente no tempo, sofra de solidão. Gostar de ler é fintar a solidão e ao mesmo tempo piscar-lhe o olho, piscar em modo: já foste(s)!!! - com três pontos de exclamação para que o fintar chute as adversidades para bem longe.

    Eu gostei - gosto - francamente de o ler, André. Ou de ler o que escreve, talvez seja a mesma coisa...

    (e também fica, além de lá, aqui também :)

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    1. Tem a Maria muita, para não ser absolutista e dizer toda a, razão! (E sim, é suposto esta frase poder provocar algum ligeiro soluço numa ou duas dendrites dos neurónios de quem a ler...)

      "(...) Gostar de ler é fintar a solidão e ao mesmo tempo piscar-lhe o olho (...)"
      Faz sentido, porque quem lê nunca está só: no mínimo, está pelo menos com quem escreveu; no máximo, está com toda a gente e mais as suas mães! ;o)

      Obrigado pelo(s) seu(s) comentário(s), e ainda antes disso, pelo desafio inspirador. =o))


      =o)


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    2. André, as minhas dendrites também têm - e assumem de cabeça erguida - um grave problema com as virgulas, com as virgulas e não só. Penso ser na onda da incompatibilidade de feitios :)

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    3. Esse problema com as vírgulas, tanto quanto me é possível constatar desde aqui, resumir-se-á, em vez dos pontos, à colocação dos acentos nos i's... O que, a julgar pelo acento em causa, não configura um problema grave, mas apenas episódios agudos!

      ;o)


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