segunda-feira, setembro 17, 2018

A Tecedeira


Virava-se sobre as costas, pernas ao ar. E tropegossando-se neles, fiava os pensamentos seus, engrossando-os uns nos outros.

Retecia-se densos cordões de ideias e, enquanto se passeava sobre eles, entrelaçava-os, como que jogando sozinha ao "jogo do cordel" – e teava assim as suas urdiduras mentais, juntando-as em mantas de retalhos com que se protegia do frio.

Brrrrrrr!... Que medos tinha do frio! Pior medo, só o medo de não poder proteger-se dele! De ver-se impossibilitada de tecer!! Não podia imaginar-se sem aquilo, sem tecer!

E então tecia… E tecia, e tecia... Apanhava tudo o que fossem ideias e tecia-se os pensamentos...

E tecia..., em diferentes espessuras de fio e variados apertos de malha, mantos para todo o tipo de situações.


(Data e Local Incertos)





sexta-feira, julho 20, 2018

A Guitarra e o Bruto


Bruto como era, pegou na guitarra com a delicadeza de um qualquer rachador de lenha. Calcou-lhe três dedos da sua mão esquerda no braço, entre trastos e em cordas ao acaso, ou melhor, conforme lhe deu mais jeito à pata. Alçando a outra, preparava-se para aplicar o primeiro golpe às cordas...

E delicodocezinha como era, a guitarra, em tom entre o encolhido e o assertivo, zurziu-lhe um berro:

— Aaaaai! Não me toques, que me desafinas!!!


-----------------------------------------------//-----------------------------------------------

Inspirado (e lá deixado na forma de comentário) por este microconto publicado há uns dias no Delito de Opinião, a quem agradeço o meu delito de inspiração




segunda-feira, julho 09, 2018

Pergunta Retórica da Série: Quem Quer Questionar Paradigmas?



Nesta fase que atravessamos da história do bicho-que-se-diz-Homem – a do Reinado de El Rei D. Umbigo Primeiro –, já que cada um rema para o lado do seu, porque raio havemos de insistir em irmos todos no mesmo barco?...




quinta-feira, junho 07, 2018

Exercício "Tardiamente Amanhecido"



Fui, não só eu, mas também, desafiado a imagicar e escrever sobre uma premissa muito interessante de ser pensada, mais ainda nos dias que correm.

Partiu da Maria (maria madeira, para os “seguidores”), através do seu AmanhecerTardiamente!, e deu várias coisas muito boas para quem gosta de fazer uso da cabeça para mais do que crescer (e/ou deixar cair) cabelo.
A minha contribuição, sendo que me soube tão bem como a pouco, ameaça transformar-se numa série de apontamentos, do qual se torna, para já, o primeiro e, por enquanto, o único. E fica, além de lá, aqui também:



Desconsolado, resignou-se com o facto. Entre tantos e tantos familiares e amigos, apenas os pais e a irmã lhe haviam dado os parabéns por mais este aniversário. Num mundo que obsoletizara as agendas de papel e os neurónios em que os cérebros humanos formavam as memórias, um mundo em que as informações eram, em vez disso, arrecadadas n’A ubíqua Núvem (ou como se diz em estrangeiro – n’A Cláudia), choviam mensagens de congratulação vindas dos vários cantos do planeta, anualmente, neste dia deste mês...

Mas hoje não. Hoje, à excepção das três mais próximas, as pessoas não sabiam, afinal, que o moço cumpria mais uma das suas (agora vinte) voltas-ao-Sol. A culpa disto, pensou, era d'A Cláudia, ou melhor, do seu súbito desaparecimento. Mas em bom rigor, estava enganado. A culpa era mesmo das pessoas, crentes que A Cláudia nunca lhes faltaria ao ponto de nela depositarem tudo o que era seu. Crentes que tudo o que nela depositassem, passava a estar-lhes acessível de qualquer ponto do globo. Crentes nessa espécie de baú omnipresente, nele se haviam já depositado as pessoas, inteiras, sempre cheias de (boa) Fé!...

A pouco-e-pouco, foi consolando o seu desconsolo com a percepção de que hoje, apesar dos pensares, era bem capaz de ter sido o dia mais sossegado que se conseguia lembrar de já ter tido. Provavelmente o único que já tinha tido, desde que entrara para a escola, sem solicitações em forma de plim!’s… Ainda que sendo um sossego muito desassossegante, o friozinho que trazia na barriga não lhe sabia mal de todo, como aquelas borboletas que lá – na dita barriga – lhe batiam as asas sempre que se cruzava com a possível troca de olhares entre si e uma certa e determinada moça, que soía estar a ler num banquinho do jardim que ele atravessava quando a rotina do dia o trazia de volta a casa…

Mas hoje não. Hoje, não havia rotina. Hoje, estava o mundo abananado, entontecido e sem saber o que fazer. Nem comércio, nem serviços. Nas ruas, quase todas desauridas, as gentes que não estavam catatónicas, soltavam e-agora?!’s umas para as outras. E as restantes, por enquanto em minoria, preparavam-se para o fim-dos-dias como se ainda houvesse amanhã…




sábado, maio 26, 2018

Existencialismo Darwinístico de Alpendre



Pende-se o alpendre de pedra por sobre o jardim. Iluminado pela noite, ganha outra dimensão, sobretudo para quem nele se abrigue.

Sentado sobre o seu murete, observo uns pequenos espécie-de-carochito castanhos a repetirem o estranho comportamento que, faz já alguns dias, e passe a repetição, repetem.

E interrogo-me, que estratégia de sobrevivência é esta?, em que aparecem a voar vindos do nada e se mandam contra a parede, e caem atordoados no chão, rodopiando-se de costas nele, a espernearem-se de tontos e, aquando finalmente se restabelecem de posição e de sentidos, a primeira coisa que fazem com as forças que acabaram de recuperar é começarem a voar com todas elas encontra o primeiro obstáculo (quantas vezes, a mesma parede) que tenham por perto, e repetir todo o processo!...


Não sei nem entendo o que possa justificar, em termos de vantagens evolutivas, a exibição deste tipo de comportamento em vários (se não todos), os indivíduos de uma mesma espécie; mas lembra-me alguém… E impõe-me questionar a fiabilidade do saber popular quando este apregoa que se está sempre a alprender.


terça-feira, maio 15, 2018

Silogismo Proverbial


Quem cedo se levanta, todo o dia canta;

Quem canta seus males espanta;

Logo,

Quem cedo se levanta, todo o dia seus males espanta!



terça-feira, maio 01, 2018

Exercício auto-proposto: "Mia Conto"

Final da tarde



“e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”

(Extracto da canção O Primeiro Dia
Sérgio Godinho)




            Para falar verdade verdadeira, Joaquinha não nascera sem pais. Joaquinha tivera uma mãe e um pai, que todos os dias a banhavam com os líquidos de seu amor. A perfumavam diariamente com a água de suas rosas. Que ela era bênção dos céus, finalmente concebida. Era o milagre da Vida se manifestando neles! E a pincelavam, dia-a-dia, com todo este verniz brilhante que lhes jorrava dos olhos.
            O fizeram, assim nestes modos, durante aí uns nove meses. Quando Joaquinha gritou seu primeiro choro, a mãe a beijou com seu último suspiro. Maria da Luz Perpétua se apagara em dando à luz…
            ­— O senhor é o pai da menina?
            Sem fazer de contas às aparências de gravidade que pendiam da cara do médico, Joaquim Saudade respondeu com o peito inchado das paternas alegrias:
            — Sou eu, sim!
           Pois sente. Que o que eu lhe tenho a dizer vai ser tão fácil de ouvir como prego de engolir…
            Joaquim sentiu-se perder as forças nos músculos de sua face, toda ela prestes a beijar o chão azulejado do corredor do hospital. Atravessou o olhar pelo vidro que o separava dos berços brancos. A filha dormia, tranquila, um sono de recém-dormido. Olhando novamente o médico, Joaquim não sentou. De tal rapidez perdeu a força dos músculos que ainda a tendo o sustentavam de pé, que ao invés de se sentar, se caiu sentado.
            — Diga, doutor. Minha mulher: morreu morta de quê?
            Morreu de parto natural.
            A última palavra já Joaquim a não escutou até ao fim. A efemerização de sua perpétua luz lhe rebentou as almas, bola de sabão em ponta de agulha. Sem Maria da sua Luz, se apagou Joaquim Saudade. Que a lua não consegue brilhantar sem a luz de seu sol…

            Mas esta história a conto sobre Joaquinha e não sobre a apagação de seus pais. Voltemos atrás para seguirmos adiante. Incorrera em Joaquinha esta rara ocorrência: não nascera desprovida de pais, mas as forças que fazem rebolar o mundo a haviam desprogenitado à nascença. Aqui voltados, retomemos o prumo ao fio para não o perdermos na meada.
            O nome de Joaquinha fora tributo que sua avó lhe tributara, fizesse assim as devidas honras ao pai sem desfazer jus às reduzidinhas dimensões da recém-medida. Acabadinha de começar a ter idade Joaquinha mediria aí metade do normal para as crianças da sua. Assim pequena nasceu e, assim pequena, medrou. Joaquinha cresceu sem se fazer crescida, mantendo sempre um meio tamanho para alguém de sua idade. Sempre meia, até mesmo quando falava as palavras lhe saíam da boca meio a medo, a meia altura. Falava pouco e não comia muito mais. Dir-se-ia, em jeito figurado, que sua chama interior ardia só a meio gás.
            Para além do dia-a-dia obrigatório, só fazia uma coisa. Saía de casa, final da tarde, logo após cumpridas as mandatórias tarefas, e seguia até ao caminho que saía da aldeia. Arrastando os sempre pesados olhos na poeira batida da terra, seus meios passos a levavam pelo caminho afora, vagarosamente, até ao portão de ferro enforjado por onde entrava.
            Para lá desse portão se encontrava, diariamente, com seus adormecidos pais. Joaquinha se deitava junto deles, que aconchegados por lençol de betão repousavam em sua campa de casal. Se aninhava por decima das cobertas e deixava refluir nela a sensação de estar no ventre morno de sua mãe, adivinhando seus pais do lado de lá da barriga.
            Assim fazia Joaquinha em modos de recordenção. Nos tempos em que não estava nascida, não tinha ainda nos ombros o peso pesado do que o seu nascer havia desfeito. E se deixava boiar na deriva desse fluir, vazando as desculpas de seu cartório.
            Todos os dias, final da tarde, Joaquinha refazia o caminho por debaixo de seus pés até chegar ao portão. Entre entrar e sair, se sentia menos meia.
            E nestes moldes desviveu ela até ao dia em que fez dezoito anos sobre o dia em que a mãe lhe suspirara seu último beijo. Nesse dia, final da tarde, sempre meia, Joaquinha se botou ao caminho, sem prever imprevisto algum. Mas justamente ao meio, a vida lhe saltou ao caminho. E antes que tivesse a destreza de se esquivar, a criança lhe tocou de leve no ombro.
            — Joaquinha, assim não pode ser.
            — Assim? Assim como? Quem é você? Como sabe de meu nome?
            Joaquinha estava muito atarantada. Não conhecia a criança mas ela lhe era algo familiar.
            — Eu... Eu sou sua vida, Joaquinha. E preciso que você venha comigo.
            Ir consigo onde, porquê?
            Onde, você escolhe. Eu o que preciso é só que me dê sua mão e me leve consigo, Joaquinha, porque enquanto você desvive por aí sozinha, eu fico sempre aqui ao meio caminho, sem poder avançar nele.
            Joaquinha soltou lágrimas e sentou no chão. Fez uma pequena poça de mar na terra por baixo de si. A criança lhe estendeu a mão: que a levasse consigo. E se enxutando, Joaquinha lhe deu a sua, se levantou e se sacudiu dos pós sem pensar nos contras.
            — ­ Vamos?...
            E desse dia em diante, Joaquinha Perpétua Saudade deixou de fazer o jus a todos os seus três nomes.
           




Coimbra, 01.Julho.2006

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

Para haver Paz...

... O Poder tem que ser de todos e de nenhum.
Todos têm que ter total Poder sobre si mesmos; Nenhum pode ter qualquer Poder sobre outrém.

quinta-feira, outubro 01, 2009

de Mia Couto, "Miudádivas, pensatempos"

(Para Manoel de Barros,
meu ensinador de ignorâncias)


Estou sem texto, enriquecido de nada. Aqui, na margem de uma floresta em Niassa, me desbicho sem vontades para humanidades. Entendo só de raízes, vésperas de flor. Me comungo de térmites, socorrido pela construção do chão. No último suspiro do poente é que podem existir todos sóis. Essa é minha hora: me ilimito a morcego. Já não me pesam cidades, o telhado deixa de estar suspenso ao inverso em minhas asas. Me lanço nessa enseada de luz, vermelhos desocupados pelo dia.
Nesse entardecer de tudo vou empobrecendo de palavras. Não tenho afilhamento com o papel, estou pronto para ascender a humidade, simples desenho de ausência. Na tenda onde me resguardo me chegam, soltas e díspares, desvisões, pensatempos, proesias. Assim, em miudádivas ao poeta:

A primavera cabe dentro do grilo.
Cigarras se alfabetizam de silêncios.
No liso da parede,
a osga se prepara para transparências,
adquire a forma do nada.
Enquanto o ramo vai transitando para camaleão.

Na mafurreira,
sobem ninhos de arribação, ovos do arco-íris.
A aranha confunde madrugada com sótão,
artefactando materiais de orvalho.
Ela se mantimenta de esperas.
Minha tenda se engrandece a teia.

Uma mosca se inadverte na armadilha.
Igual o amor
que me rouba os mecanismos de viver.

Formigas transportam infinitamente a terra.
Estarão mudando eternamente o planeta?
Estarão engolindo o mundo?

Insectos sonham ser olhados pelo sol.
Mas só a chama da vela os vela.
Já o ovo é iluminado por dentro,
tocado pela luz do infinito.
O ovo repete o total início,
redundante gravidez do mundo.

Por isso, este surpreendido ovo
não tem competência para meu jantar.
Pena o estômago não entender poesias.

Nada se parece tanto: poente e amanhecer.
Defeitos na tela do firmamento?
Instantâneas aves,
pedras que se despoentam.
A noite acende o escuro.
Tudo semelha tudo.
Só a coruja atrapalha a eternidade.

Está chovendo horas,
a água está a ganhar-me semelhanças.
Escuto ventos, derrames de céu.
Parecem-me luas e são lábios.
Lembranças de minha amada.
A tua boca me ilude, sou culpado de teu corpo.
Saudade: sou mais tu que tu.

Escuto, depois, a enchente.
Longe, a água desobedece a paisagens.
O rio toma banho de troncos,
raízes da água se soltam.
Sigo de catarata, luz encharcada.
E peço desculpa à margem:
desconhecia as unhas de minha transbordância.
Meu sonho está cego para razões.
Sei só escrever palavras que não há.

Depois, o sono me encaracola:
estou a ser pensado por pedras,
me habilito a chão, o desfuturo.


Mia Couto, in "Contos do nascer da terra"

quinta-feira, julho 16, 2009

Duas palavras:
só duas,
que duas
são já
palavras bastantes.
Duas são
talvez até
palavras demais...
Por isso,
só duas...
e não três!

Bruxelas, 16.07.2009

segunda-feira, junho 08, 2009

Dum sopro resfolegante do meu pai,
dou entrada no ventre aveludado da minha mãe.
Sou
(ainda e só)
um sopro de ar resfolegado
e sem mais nome do que esse
dou tres voltas
pelos tecidos quentes que me contêm...
É chegado o momento.
É agora que vou ficar a saber como é que é...
Uma espécie de implosão dá-me a ordem de expulsão e...

E é... Voar!...
Desde o cimo glaciar desta montanha
até aquela e à outra e à outra!,
e é ressumbar nas suas escarpas serradas
que se rebentiplicam em jorros de água!,
e é ricochetear-me segundo as leis físicas
por entre as muralhas majestosas da terra!,
em ecos sustenidos de mim...

E nesses ecos,
sustenidos,
ainda se reconhece o nome que,
ao nascer,
me acabaram por dar as mãos do meu pai:
Sustenido, Ré Sustenido.
O primeiro de uma milena de irmãos
nascidos acto contínuo
e que gritam
todos juntos
mãos com mãos:
É NOSSAS, QUE ESTAS MONTANHAS SÃO!

AH! E quase me esquecia de referir também,
que o meu pai tocava gaita, a minha mãe!...

sábado, setembro 13, 2008

A maior das Ursas
envolta numa translucida névoa;
o Céu, azul-reprofundo,
rasgado por como um arco cicatricial que o trespassa
de horizonte a horizonte.

Pego na Ursa
e tiro-lhe as medidas
que me levam à sua irmã pequena.
Aponto-lhe a Estrela do Norte
e tiro-me o rumo.
A rasgadura celeste
une o Nascente ao Poente.

Queimado o Céu pelo passar do Sol...

Galizes, OHP, 11.09.2008

domingo, janeiro 20, 2008

Venho por este meio anunciar a quem me escute
que a felicidade é
por demais fácil ser colhida.
Tão só há que semear nas gentes sorrisos,
regando-os para desfrute
das frondosas flores que a vida
germinará,
tão férteis sejam os pisos…

São estes os solos a quem somos amigos,
são estes os solos donde, e já o sabiam os antigos,
se colhe, de verdadeira verdade,
a flor donde nasce tal fruto,
a felicidade.

19.01.2008, Schabernak, Bruxelas

terça-feira, dezembro 25, 2007

deixando-me levar pela nostalgia dos abraços,

escuto, atento, os meus próprios passos.

venho ansioso ao reencontro de mim mesmo,

tenho no ser um revolver infindável

de memórias e momentos que são escassos…


e tenho os sentimentos todos desaguando-me no peito como esta voz que me canta,

e as saudades todas a correr-me nas veias e a estancarem-se-me na garganta

e uma pérola dos mares, na esquina do olho,

pronta a caír, de tombo, pro chão…

sem escorrer.

só assim,

caída,

como um pingo de Vida que recolho na mão.


24/5 Dez 2007, Rue Haute !

terça-feira, novembro 27, 2007

Sou mais forte que este Mundo
que às costas já carreguei,
mais rico que os tantos tesouros
que nunca desenterrei.
Sou mais duro que a madeira
que aos meus ombros se faz cruz,
mais persistente que o escuro
em que logrei achar luz...

Sou mais ágil do que os ventos,
mais possante que as marés,
e mais duradouro que os tempos
ou a terra onde assento os pés.
Sou mais quente que as chamas que rompem o frio
e mais agradável que a brisa fresca de Estio...

Sou mais intenso que a Vida,
sou mais eterno que a morte,
mais verdadeiro que o fim...


Podia assim ser... Eu que o diga!
Pudera tão só ter a sorte
de vencer estes medos que me brotam de mim...


27.11.2007, Cantine/Rue Haute, Bruxelas.

domingo, novembro 18, 2007

Aos ouvidos do coração...

Entrei
na excitação tranquila de quem recebe uma dádiva.
O gradual baixar das luzes
subiu-me a expectativa.

Começou…

Aquela voz
ecoou-me nas paredes nuas da alma.
Todos os pêlos do meu corpo vibravam em conjunto,
compassados pelas frequências profundas
que em etéreo palco o anjo cantalizava.

Cada uma de sua vez,
e aquecidas por tão imponente beleza,
as lágrimas foram-se-me derretendo pela face.

Com a dor de uma rolha que se abre em vinho antigo,
o sem-fim das reverberâncias
me sacou, do coração,
infindáveis sentimentos envelhecidos em casco de carvalho…

E perdido nestas palavras
almejo intencionalmente inigualar tais emoções ao que aqui escrevo,
imodestamente procurando prolongar
(bem sei que em vão)
o transcendente instante daquela comunhão:
Aquela em que a Vida ela mesma
me embalou os ouvidos do coração…


16.11.2007, Rue Haute (Cantine)

sexta-feira, maio 04, 2007

Do lado esquerdo da estrada
as plantas choram
p'la madrugada.

Cada lágrima orvalhada
é redondinha e brilhante,
é pérola
e diamante.

Cada lágrima derramada
p'los olhos verdes da terra,
é uma árvore queimada
ali em frente,
do outro lado da estrada.
Se de um lado a terra chora,
do outro perdeu a vida...

Mas a lágrima chorada
vai atravessar a estrada
e a terra despida e sem nada
há-de ver-se renascida.

Porque as plantas
quando choram
cada gotinha de orvalho,
não é só por estarem tristes,
faz parte do seu trabalho.

09.08.2001, Galizes, Oliveira do Hospital
Fui banhado por um sonho,
um sonho de mar.
Um sonho como uma onda
que me enrolou,
um sonho que só parou
quando a onda se desfez
sobre a areia, a desllizar.

Como são bonitos
os sonhos de mar...
Como são bonitas
as coisas por acabar
e aquelas que acabando
se espalham na areia e vão deslizando.
As que na areia se vão infiltrando
e que acabam por se dissipar,
não quando envolvem a areia,
quando a areia começa a secar...

Fui banhado por um sonho...
Um sonho bonito.
Um sonho de mar.

16.08.2001, Galizes, Oliveira do Hospital
És fofa.
Tão fofa,
que agora que me deito
te queria a ti por alcofa,
queria por alcofa o teu peito.
Queria adormecer de manso,
pelo teu peito ir sonhando...
E findar o meu descanso
no mesmo peito acordando.

09.09.2001, Galizes, Oliveira do Hospital
Hoje o dia esteve lindo.
Tão lindo,
que uma lágrima vai caindo
p'lo meu rosto.
Caindo como caiu
o Sol agora deposto:
um pouco a meu contra-gosto.

Ainda assim
o dia acabou...
Mas aquilo que me deixou
é tão lindo como foi
aquilo que ele levou.
O tom rosado do céu
é tão lindo como o Sol que se escondeu...
A lágrima já secou.
Agora só resto eu...

Resto eu,
mas não sozinho,
que a noite já vem a caminho.
Vem aí p'ra me lembrar
que outro dia está p'ra vir.
Um dia que será lindo...
Tão lindo,
que outra lágrima vai cair...

17.09.2001, Galizes, Oliveira do Hospital
É na entoação dos gestos
e no jeito das palavras,
que com arados modestos
as terras minhas tu lavras.

Por lá semeias searas
de trigo, no meu coração.
E o teu sorriso são brasas
onde o trigo se faz pão.

Que é na terra trabalhada,
já fofa e ainda quente
dos vários golpes da enxada,
que melhor cresce a semente...

Assim, as palavras e gestos,
os teus arados modestos,
fazem crescer searas
nos solos que ontem pisaras.

E resplandecem douradas.
Pelo Sol iluminadas
transpiram vitalidade.
E o Sol que de dia as aquece,
p'la noite, desaparece,
deixando no escuro a saudade...

22.09.2001, Ritual, Oliveira do Hospital
Com o correr do tempo
o coração
vai-se enchendo
dos abraços contidos
que os braços não puderam dar.
Vai-se enchendo
dos sorrisos que os olhos não viram.
E enche-se quase até rebentar.

A esta dor,
a esta espécie de enfermidade,
chamamos nós,
portugueses,
Saudade.

10.05.2006, Coimbra
Corre
Salta
Joga
Ri!
Brinca
com o Mundo que há dentro de ti!

E espreita
E fala
E ouve
E chora!
Não deixes
que o Mundo se vá embora!

E canta
Rodopia
Dá um pé de dança!
Que esse Mundo
Não passa de uma criança!

23.07.2001, Galizes, Oliveira do Hospital

quinta-feira, março 15, 2007

Sentia-me imerso em tão grande paixão
que desci ao fundo do meu coração.
Um imenso mar vermelho
dividia-se em mil ondas
e em coro as mil ondas cantavam,
em coro as mil ondas se riam.
E em coro com elas cantei
a enorme alegria
com que as ondas me embebiam.

Uma das ondas veio ao pé de mim.
- Pega-me ao colo! - pedi...

Deixei-me embalar
nos seus braços quentes,
depressa dormi.
E deixei-me levar
por tantas ondas diferentes
que me perdi!

Por fim se aplacaram as ondas.
Serenaram-se as águas vermelhas.
O imenso mar...
Acalmou.

Mas não foi a paixão que partiu,
foi o amor que chegou!

15.04.2002, Oliveira do Hospital

quarta-feira, março 14, 2007

Minha Alma partiu já
à aventura
Sem saber nem do porquê
nem de ninguém,
Minha Alma partiu já
e porventura
O meu corpo ela levou
como refém.

Minha Alma seguiu já
foi à procura
Daquilo que ninguém tem
para lhe dar,
Minha Alma seguiu já
atrás da cura
Mas sabendo
que a não ía encontrar.

Minha Alma fugiu já
porque sabia
Que não há uma razão
para fugir,
Minha Alma fugiu já
porque entendia
Que a razão da sua fuga
era partir.

07.02.2001, Galizes, Oliveira do Hospital
Assim se busca o Mar
a si mesmo.
Assim se volta em ondas
e avança,
assim se revolta e se lança
nas areias soberbas.
Assim se espuma
em cordeiros,
assim se enche
e se levanta bramindo,
Assim se solta
despindo
a meiguice do seu rebanho.
E então se enfurece
e reclama ao Céu
o espaço que é seu
e de novo carrega
sobre os rochedos,
sobre eles se espalha em segredos
ou em flocos de algodão.
E assim,
com abraços ternurentos
ou chapadões violentos
as ondas que vêm se vão.

(local e data incógnitos)

segunda-feira, março 12, 2007

Procurei o Sol na manhã cinzenta,
encontrei um grito
solto no ar.
Procurei a Lua na noite agoirenta,
encontrei a boca
que andava a gritar...

Oliveira do Hospital

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Um rosto faz-se de lágrimas
e em lágrimas se desfaz.
E as lágrimas vão caíndo
indiferentes,
tanto lhes faz.

Para as lágrimas não há diferença
se o rosto no qual deslizam
está a chorar
ou a rir.
Às lágrimas tanto lhes faz,
precisam é de sair.
Precisam é de escorrer,
de escorregar,
de cair.

Mas a diferença está lá,
a diferença existe.
Porque um rosto faz-se ou desfaz-se
se a lágrima que o percorre
jorra alegre ou escorre triste.

26.09.2002, Oliveira do Hospital
Tão fria a noite. Tão frias as carnes e os ossos.
Mas tão quente a Alma que vibra folclores de concertinas educadas pelos pássaros. Tão quentes os sonhos que a Lua adormeceu em almofadas retumbadas por silêncios anamórficos, tão seculares como a primeira planta que germinou a crosta da Terra.
É lava que me escorre nas veias.
Espessa. Viscosa. E cantarolante...

26.12.2006

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Possa eu
ser a montanha majestosa,
impôr-me firme
sopre o vento que soprar.
E possa eu
beijar as núvens que a abraçam
e possa em mim fazer o vento assobiar.
E possa eu
ser um vale aconchegado,
abrigado entre as encostas dos meus montes.
E possa eu
ir recolhendo em mim as águas
e possa eu
num rio levá-las a mil fontes.

E possa eu
ser tudo aquilo que não sou,
ser a montanha, ser o vale e ser o rio.
E ser os montes e as águas e as fontes,
e ser as núvens e o vento e o assobio.
E possa eu
ser tudo reunido em mim,
ser passado, ser futuro e ser presente.
Possa eu
ser o princípio e ser o fim,
que eu nada sou
mas sei que tudo me pertence.

Algures em Nenhures, 2006
Hoje a noite
é de cacimba, de nevoeiro.
É visão de aparições na penumbra,
é um cheiro.

É o brilho de um beijo
em água tão jovem,
é o suave gotejo
das pequenas pingas que chovem...
E é as saudades que tenho
de que os teus olhos me olhem...

Galizes, 2006

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

O regato regateia o seu espaço com a terra das margens. Choca com elas para um lado e para o outro. Serpenteia-se por onde pode, soando a um mar de uma só onda.
Tomo os pássaros por gaivotas e imagino-me numa qualquer praia, de olhos fechados, em contemplação da ambiência.
E chego a sentir o sol quente do Verão a cheirar a maresia...

31.01.2007, Oliveira do Hospital

domingo, janeiro 28, 2007

Folha a folha,
entrelaço umas velas.
De troncos roliformes
ergo mastros.
E parando um momento
ante cada vaga que encontro
rompo os mares,
num casco de noz que se deriva por aí,
conforme os ventos e as correntezas...
Deixo-me embalar
pelos altos e baixos.
Deixo-me levar
pelo sopro das núvens
que ladeiam a Rosa-dos-Ventos
do único mapa que tenho.
Um mapa que não tem terras
nem águas.
E no meu casco-de-noz sem nome,
encontro-me
com as amarras que deixo em cada porto...

Oliveira do Hospital, 28.01.2007

domingo, setembro 10, 2006

Antes dos tempos serem tempos,
antes dos mares serem tormentos,
rezam as lendas
e as histórias,
que os Homens não tinham inventos
nem memórias.
Antes das naus e dos naufrágios,
dos pressentimentos
e dos maus presságios,
apenas havia instintos:
Puros, apesar de primários.
Antes da Civilização,
antes da palavra,
antes mesmo da Razão!,
só uma coisa mandava:
o Coração.

09.09.2006, Oliveira do Hospital

sábado, maio 20, 2006

No meio do céu cinzento
abre-se uma brecha numa núvem escura.
E o Sol espreita o Mundo
pelo buraco da fechadura...

2001, Oliveira do Hospital
O homem sentou-se,
à minha frente...
Olhou para mim,
sorridente.

Retribuí.
Quase sem esforço
encontrei um sorriso
e sorri.

Não foi difícil,
sorrir a um estranho.
Apenas foi estranho.
Isso!
Foi estranho sorrir a um estranho.
E um estranho ter-me sorrido...
Foi estranho o sorriso de um desconhecido.
Foi estranho,
mas foi preciso!
Se o estranho não me sorrisse
e não me lembrasse a alegria,
talvez não tivesse eu sorrido
naquele dia.
E desconfio que o estranho sabia...
Sabia, se não me sorrisse,
que aquele dia passava ao meu lado
e eu não sorria.

Estou-lhe por isso agradecido.
Agradeço o sorriso que me foi sorrido
por um desconhecido
e amanhã
retribuo àquele homem
toda a arte do seu engenho.
Amanhã
vou sorrir a um estranho.

11.12.2001, Lagares da Beira, Oliveira do Hospital
Uma primeiro
e depois outra mão.
Deitei-as ao fundo do meu coração
e por lá vasculhei...
De entre os vários achados,
escolhi o mais lindo
e tirei dois punhados,
dois punhados
da alegria que encontrei.

Depois...
Depois atirei-os aos dois,
atirei-os ao ar
como pétalas ao vento
ou como duas pombas
que anseassem voar.

Se eram pétalas,
o próprio vento se encarregou de as espalhar;
Se eram pombas,
bateram as asas para nunca parar...

Foi assim que entraram
em todas as casas,
por todos os lados,
os dois punhados da minha alegria,
aliviando às pessoas
os fardos pesados do seu dia-a-dia.

E assim fui poeta...
Assim fiz poesia.

02.11.2001, Lagares da Beira, Oliveira do Hospital

quarta-feira, abril 19, 2006

Dizendo-te isto
vou correr o risco
de te fazer as bochechas corar:
Por cima delas
duas lindas janelas
encontram-se abertas de par em par
e brilham
sempre que o vento entra nelas
e, por um momento,
te-lhes ondeia as cortinas
com o seu fresco soprar...

18.04.2006, Coimbra

sábado, abril 15, 2006

Um segundo
é quanto basta ao artista
para num gesto bailado
se fazer ilusionista.

Da cartola sai a carta
que a nossa vista iludida
reconhece ser escolhida
por um qualquer espectador.
Sob o nosso olhar atento
um coelhinho cinzento
fica branquinho e sem cor.

Um segundo me conceda
o maior ilusionista!
Um segundo de ilusão!
Que um só segundo me chega
se nele se iludir a vista
dos olhos do meu coração...

22.09.2001, Galizes, Oliveira do Hospital

sexta-feira, abril 14, 2006

São rosas
o que choram os meus olhos.
São rosas
mas não rosas por inteiro...

Umas pétalas
primeiro,
e só depois uns espinhos...
As pétalas como carinhos
e os espinhos,
os espinhos como o rebate
do bate-que-bate de um sino
ao ritmo do meu coração.
Um sino não,
um carrilhão que alto entoa uma canção...

E são rosas
o que choram os meus olhos...
São rosas, são.

19.09.2001, Galizes, Oliveira do Hospital
Em tempo de guerra
tudo se enterra.
Enterram-se os mortos,
enterram-se os vivos,
enterram-se os sãos
e enterram-se os feridos.
Enterram-se
nus e vestidos.
Tudo se enterra,
em tempo de guerra.

Enterra-se a diferença
e a igualdade,
enterram-se as crenças
e a verdade,
enterra-se a vida
e a dignidade.

Em tempo de guerra
tudo se enterra.
Enterram-se gritos
e gemidos,
enterram-se amigos
e desconhecidos,
enterram-se os bons,
enterram-se os bandidos.
Tudo se enterra,
em tempo de guerra.

Enterra-se o homem em liberdade,
enterra-se o outro
atrás da grade...
Em tempo de guerra
tudo se enterra,
incluindo a Humanidade...

18.09.2001, Galizes, Oliveira do Hospital
O palhaço ri na pobreza.
O palhaço ri da tristeza.
Mas ri.
Ri
porque não tem juízo.
Ri
porque ao rir
há uma criança que abre um sorriso
e se ri do palhaço que não tem juízo.

Por trás destes risos
e destes sorrisos
a máscara encobre um palhaço tristonho,
mas a criança ri e sorri
ao sentir-se num sonho
e ao palhaço o que importa é o menino risonho.

O triste palhaço
contempla a alegria
do tempo em que a máscara com ele sorria
e a sua tristeza começa a fugir.
A fugir
do menino que está a sorrir.
A fugir do menino dos olhos que brilham
e a fugir do sorriso que ambos partilham.
E fugiu tão depressa daquela alegria
que o próprio palhaço também já se ria!...

O palhaço riu porque não tem juízo.
Riu
porque uma criança abriu um sorriso.

12.08.2001, Gouveia
Esfumam-se
em torvelinhos
no ar
os meus pensamentos,
a divagar...
No ar se agitam e pelo ar se dissipam,
como o fumo do fogo
que nas matas a arder
se divide p'las árvores
que estão a morrer...

... Como o pinheiro,
com as suas agulhas que se erguem ao alto
num grito, dizendo:
- Aqui!
- Aqui estou eu!...
- Quero tocar em ti!
- Quero chegar ao céu!...

... Como o eucalipto,
de folhas como lágrimas vertidas
num choro, gemendo:
- Não quero aqui estar!
- Aqui em cima não!...
- É muito perto do ar!
- Quero estar perto do chão!...

Assim se escoa o fumo
do fogo que arde
no meu pensamento,
dividido entre o choro e o contentamento.

27.07.2001, Galizes, Oliveira do Hospital

quinta-feira, abril 13, 2006

Se descansate a flutuar
terás um sorriso ao acordar;
se não,
desata o nó que te apertou o coração...

2001, Galizes, Oliveira do Hospital
Ai horizonte distante
que de mim te afastas a cada instante.
Por mais devagar que te tente seguir
continuar-te-ás a afastar,
continuar-me-ás a fugir...

Ai horizonte
porque foges assim?
Que mal te fiz eu para fugires de mim?
De mim, que te quero envolver nos meus braços,
de mim, que te quero pintar com meus traços,
ai horizonte
porque te afastas ao ouvir meus passos?...

Bem sei
que mais perto não te posso ter
do que a distância a que te estou a ver,
mas diz-me,
horizonte,
ai diz-me por fim.
Ai diz-me,
horizonte:
Porque foges de mim?

22.07.2001, Torres Novas
Algumas são sorridentes,
outras são coisas doídas...
Umas morrem entre os dentes,
as outras
no chão caídas...

Algumas são bem pequeninas,
outras são grandes e gordas...
Mais ou menos cristalinas
quero acarinhá-las todas...

Algumas
são pesadas como chumbo,
outras sobem ao céu
por serem mais leves que o ar...
Assim
são as lágrimas que broto no Mundo,
dores e alegrias deste peito meu
ao de leve salpicadas com o sabor do mar.

04.04.2006, Coimbra

quarta-feira, março 29, 2006

Voa voa borboleta
voa!
Voa voa borboleta
pelo ar!
Voa voa
borboleta
e esvoaça
borboleta
entre as flores
borboleta
sem parar!

Voa voa
borboleta de asas brancas!
Voa voa
bate as asas cor-de-neve!
Os teus vôos
borboleta
são as mais lindas lembranças
de que como as tuas danças
eu sou breve...

25.03.2006, Coimbra

domingo, março 19, 2006

O Mar vagueia pelo meu corpo...
Vaga vem, vaga vai,
o Mar envolve-me...
Vaga vai, vaga vem,
o Mar dissolve-me...

O Mar ondula-me o corpo submerso
como a poesia é ondulada pelo verso.

E vaga vai, vaga vem,
como as ondas afagam a areia,
assim o Mar pelo meu corpo vagueia...

19.03.2006, Lisboa

sábado, outubro 01, 2005

O Céu e o Inferno não são moradas para os mortos.
São estados de alma dos vivos...

terça-feira, julho 19, 2005

A núvem, o pássaro e o Mundo

Estava a olhar uma núvem. Gosto de olhar para elas, transformando-lhes os contornos em formas de outras coisas. Estava a olhar uma núvem, a começar a conhecê-la por fora, quando de dentro dela saíu um pássaro. Dirigia-se a mim. Qual avião, deu três voltas no ar por sobre a pista que seria eu e aterrou nas minhas mãos. Sorriu-me. Retribuí.
- Que estranho pássaro és tu? - perguntou-me, curioso.
- Sou um Homem, sou um pássaro sem asas. - Respondi.
- Então... não voas?
- Não. - disse-lhe eu com um franco encolher de ombros.
- Oh! - exclamou o pássaro, desapontado. - Coitadinho de ti... - acrescentou.
- Coitadinho? Porquê?
- Porque não conheces o Mundo...
- Conheço um Mundo que não o teu. Mas fala-me dele! - pedi-lhe entusiasmado. - Fala-me desse teu Mundo que tu coneces e eu não!

O pássaro não respondeu. Dele, nem piu. Limitou-se a olhar para mim, de cima a baixo e de baixo a cima, avaliando-me. Devia estar a indagar-se se seria eu merecedor ou não das suas palavras.
Num repente, voou-me para debaixo das pernas, sentando-me nas suas costas. E levantou...

E então conheci, por dentro, a núvem. Visitei o Arco-Íris, fui ver o Sol e apresentar-me ao longínquo horizonte. Mas nada disto era novo para mim. Já conhecia este Mundo, já o avistara ao longe. Não foi surpresa o que vi. Só vi outro Mundo quando, por momentos, me agigantei. E aí sim! Vi um Mundo novo perante os meus olhos!
Vi casas pequeninas como as unhas da minha mão e pessoas pequeninas como os poros da minha pele. Vi auto-estradas por onde corriam carros como corre o sangue das minhas veias e artérias, uns para dentro, outros para fora duma cidade do tamanho do meu coração. E vi os contornos de um país que desenhavam o meu pé, um país que poderia ser o meu sapato.
Embevecido estava eu na minha descoberta quando o meu mais recente amigo se suspendeu no ar em pleno vôo, quase imobilizado pelo ar quente que lhe sustinha as asas majestosas. De súbito, senti o estômago esvaziar-se, subindo-me até ao peito. Em poucos segundos pousámos no local exacto de onde havíamos partido. Tudo como na descolagem - eu de pé, o pássaro saindo de debaixo de mim e voltando às minhas mãos.
Continuava sem falar. Olhava-me como quem rectoricamente pergunta - Tinha razão ou não tinha?... - respondi à pergunta não feita:
- Tinhas razão, sim. Obrigado por me teres mostrado o Mundo! Nunca pensei que ele fosse tão parecido comigo! É bonito descobrir que o Mundo em que o Homem vive não é muito diferente do próprio Homem.

O pássaro que eu tinha por amigo voltou a não falar. Olhou-me como quem tem pena. Com os olhos, dizia-me que me levara a ver um Mundo que eu não vira. E foi-se embora sem sequer um adeus, desaparecendo na núvem que eu, agora sim, posso dizer que conheci.

Senhor das Almas, Oliveira do Hospital, 10.2001

segunda-feira, junho 27, 2005

A Utopia


A Utopia
É a vontade de Deus;
Não se realiza
Porque somos ateus,
Porque nós somos livres
De a não realizar,
De seguir nossas vontades
E de a Ele não ligar
E é por isso que este barco
Continua a se afundar.

Vamos parar, olhar, pensar,
Mas não dá tempo,
Estamos a naufragar...
Só há uma salvação:
Nadar...
Não podemos fazer nada
E já nem dá p´ra respirar!
Não dá p´ra vêr,
Ou ouvir,
Não dá p´ra chorar,
Nem p´ra rir...
Uma Vida p´ra Viver
E a gente a deixar-se ir...

Dois mil anos já lá vão
Sem aprender a lição,
E hoje...
Hoje não pode ser.
Só enchemos o copo às metades
E assim...
Assim nunca o vamos encher.


    André Medeiros, 03.05.2000

 

O reino do Messias é pacífico e próspero

Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará.
E repousará sobre ele o espírito do Senhor, o espírito de sabedoria e de inteligência, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do Senhor.(...)
(...)E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e a nédia ovelha viverão juntos, e um menino pequeno os guiará.
A vaca e a ursa pastarão juntas, e seus filhos juntos se deitarão; e o leão comerá palha como o boi.
E brincará a criança de peito sobre a toca do áspide, e o já desmamado meterá a sua mão na cova do basilisco.
Não se fará mal nem dano algum em todo o monte da minha santidade, porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar.(...)

Bíblia Sagrada, Isaías, 11.

quinta-feira, junho 23, 2005

Ao som do clarim

Hoje, sem saber porquê, todos olhavam para ele. Não só mais, como também de uma maneira diferente da usual. E não se percebia porquê - afinal, a sua farda estava composta a rigor, as calças por dentro das botas, os atacadores cruzados como manda a norma, a camisa bem abotoada até ao cimo e com as devidas medalhas penduradas do lado correcto do peito, a barba feita sem que um imprudente pêlo espreitasse para fora da pele e o cabelo aparado de modo que nem um único e desordeiro cabelo lhe tocava o cimo das orelhas.
Atravessou a parada do quartel, com o olhar de todos posto nele. Sentia-se algo estranho. Nunca, em todas as muitas vezes que atravessara aquela parada, tinha tido os olhos de todos os seus camaradas, de patentes inferiores ou superiores à sua, concentrados nele.
Soou o clarim, e entrou para a parte de trás do carro - preto, que hoje era dia de cerimónia. A novo toque de clarim, o carro arrancou.

Outro clarim o esperava no seu destino. Todos viram o seu carro chegar, como o haviam visto partir à saída do quartel - ao toque do soprável instrumento.
Saiu do carro. Atravessou uns quantos de metros de relva verde e fresca, até chegar junto do local de onde vinham os estranhos olhares que lhe eram dirigidos. Aí chegado, o clarim parou de tocar, para dar lugar, após uma breve pausa, a umas menos, mas também breves, palavras.
O clarim recomeçou a tocar. Parou logo a seguir, apenas o tempo suficiente para que, por três vezes, dez dos seus camaradas apontassem ao ar as espingardas, disparando-as em uníssono.
Finda a pausa, o toque recomeçou, enquanto ele se escondia, atrás de uma pedra fria, dos, por persistência, já incomodativos olhares. Simultaneamente, outros dois camaradas seus dobravam a bandeira que o cobrira com as cores nacionais, e ao som do clarim entregaram-na à sua mãe.
As lágrimas que esta conseguira, até então, conter, vieram, finalmente, de enxurrada, juntar-se às outras que já se lhes tinham antecipado.
Agora, salgadas as cores da bandeira, o clarim calou-se, deixando que o tranquilo e calmo silêncio, por fim, pairasse uma vez mais sobre o cemitério já deserto.

Senhor das Almas, Oliveira do Hospital, 08.10.2001

domingo, junho 12, 2005

Prosa

Nunca, até ontem, tinha cheirado uma cor. Ontem cheirei. Cheirei um agradável verde, em tons de húmido. Desprendia-se das plantas rasteiras, no solo, e subia até mim, enchendo o meu peito daquela cor deslumbrante...
A chuva caía lá de cima, sem cheiro. E fiquei eu, como tudo à minha volta, a cheirar a qualquer coisa em tons de húmido...
Aquele cenário magnífico, não o posso pintar senão por palavras, porque não se podem pintar quadros com aquelas tintas, que cheiram a cores em tons de húmido. E porque não se pode pintar o som fervilhante da chuva a cair, nem se pode pintar o murmurar das águas que corriam apressadas num riacho ao pé de mim, nem se pode pintar o doce da voz que, de entre o riacho e a vegetação densa que dele me separava, veio até ao meu coração dizendo - Sai daí, que agora está a chover mais!
E também não se pode pintar o sorriso com que eu respondi - Ainda bem!

Senhor das Almas, Oliveira do Hospital, 08.10.2001

Poesia


A chuva cai
    cai sem parar
Intermitente
    como as ondas do mar
E vai caindo
    não quer acalmar
E cai de repente
    sem avisar
A chuva cai
    cai sem parar
Às vezes parece
    que quer abrandar
Mas lá vai caindo
    sem descansar
E se agora esmorece
    logo torna a pingar.

A chuva cai
    cai sem parar
Uma aberta no céu
    diz que vai acabar
Foi o Sol que apareceu
    e a veio afastar
E o que estava molhado
    já está a secar
Mas a Terra não vai
    deixar de girar
E se não chover cá
    choverá no Hawai
Tanto faz ser aqui
    como noutro lugar
Mas a chuva cai
    cai sem parar.

      Galizes, Oliveira do Hospital, 2001

 

sexta-feira, junho 10, 2005

Poesia


Suspensa
na gigante e invisível grua,
lá estava ela semi-cheia,
a balançar-se
semi-nua.
Lá estava ela,
pendendo por sobre os telhados
das casas da minha rua.
Com um pano negro cobrindo um dos lados
e com a outra metade amarela e nua,
eu vi-a da minha janela
e tu podes vê-la da tua!


    André Medeiros, Coimbra, 21.04.2005